José Pessoa Cavalcanti

Agente de Cinematografia e Microfilmagem - 18/06/2010

Responda rápido: quantas pessoas você conhece decidiram dedicar, de corpo e alma, 43 anos de suas vidas a uma instituição? Certamente não serão muitos os nomes lembrados, e é provável que você mesmo considere esse período de dedicação muito longo. Após realizar este feito, seria mais do que natural que o agente de cinematografia e microfilmagem José Pessoa Cavalcanti estivesse contente em poder se aposentar, ciente do dever cumprido e sendo merecedor de todas as homenagens possíveis da Academia Nacional de Polícia. Porém, o caso de amor de Cavalcanti para com o Departamento de Polícia Federal é tão grande que não é difícil vê-lo lamentar a aposentadoria compulsória decorrente de seu 70º aniversário. “Se pudesse, gostaria de continuar”, confessa.

A trajetória emblemática de Cavalcanti fez com que, na última sexta-feira (11), durante a Solenidade Semanal de hasteamento de bandeiras, a Academia decidisse homenagear seu servidor mais dedicado com o “Certificado de amigo da ANP”. Para o SINPECPF, a honraria é mais do que merecida. Cavalcanti é um verdadeiro símbolo da instituição. Tanto que será difícil enxergar a ANP sem a sua presença.

Cavalcanti é o nosso “servidor em foco” da vez, seção esta que, em caráter excepcional, adota um formato diferenciado. Sendo exemplo de dedicação e conduta profissional para todos os seus pares e também para os demais servidores públicos, nada melhor do que deixar o próprio Cavalcanti contar um pouco sobre sua trajetória dentro da ANP. Ao conferir o relato abaixo, o colega irá ter certeza de que a Polícia Federal seria um órgão melhor se todos os seus servidores tivessem o comprometimento do companheiro Cavalcanti.

“Em dezembro de 1966, o Departamento de Administração do Serviço Público promoveu um concurso interno, do qual participei, fazendo provas de Matemática e Português. Obtive nota sete e meio e, assim, em 5 de janeiro de 1967, tomei posse na Divisão de Censura e Diversão Pública (DCDP). Trabalhei cinco anos na Censura, fazendo projeção de filmes. Em julho 1973, a Academia Nacional de Polícia, ainda localizada no Setor Policial Sul, precisava de um servidor para trabalhar nessa área com os alunos, e eu fui escolhido. Exibi muitos filmes para alunos de várias turmas dos cursos de formação. Os filmes eram exibidos, principalmente, no período da noite, em dias estipulados. Tratavam-se de filmes técnicos, liberados pela Censura, que eram projetados para efeito de treinamento.

Quando cheguei à Academia, seu diretor era o Dr. Caio Marcionílio da Fonseca Brasil. Nessa época, trabalhei com serviços sigilosos, voltados, sobretudo, para elaboração e aplicação de provas de concursos públicos. Na gráfica, trabalhávamos dia e noite para cumprir os prazos estipulados. Eu pertencia ao grupo de trabalho do Serviço de Meios Auxiliares, chefiado, na época, pelo Dr. Mesquita, que hoje é perito. O Dr. João Batista Campelo, que mais tarde assumiu a direção da Academia, também fazia parte desse grupo.

A Academia, quando localizada na Asa Sul, acolhia aproximadamente 500 alunos. No concurso de 1975, foram recrutados 600 alunos. Acredito que esse tenha sido o maior número de alunos alojados nas instalações anteriores. Ali, a equipe de servidores era muito boa e muito unida. O único trabalho terceirizado era a limpeza.

Em agosto de 1978, a academia mudou-se para o atual endereço, próxima a Sobradinho. Isso aconteceu na gestão do Dr. João Batista Campelo, quando o Cel. Moacir Coelho estava na Direção-Geral do Departamento de Polícia Federal.

Depois de iniciadas as atividades na nova academia, foi formada uma equipe, composta por Cida, Carlo, Batista e outras pessoas que trabalhavam com fotografias. Além disso, foi instalado um laboratório de fotografia, utilizado, principalmente, por agentes que trabalhavam nessa área. Em 1982, passei a dedicar-me exclusivamente à fotografia. Na época, trabalhávamos apenas com fotos em preto e branco e éramos responsáveis por todo o processo fotográfico; inclusive a revelação. Tudo era feito por nós na própria academia. Posteriormente, quando eu já estava apto nessa atividade, passei a ministrar aulas no Curso de Fotografia. Em meu arquivo, tenho guardados os negativos desse trabalho.

Tanto na antiga quanto na nova academia, atuei em várias áreas, sendo requisitado, inclusive, para participar de aulas de Vigilância e da preparação do treinamento de Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE). Eram preparadas situações quase reais, que permitiam o treinamento de todos os procedimentos necessários ao processo de atuação naquela área.

Posso afirmar, sem o menor constrangimento, que sempre vesti a camisa da Academia Nacional de Polícia e, conseqüentemente, do Departamento de Polícia Federal. Todos os diretores foram ótimos profissionais, no entanto, quero aproveitar a oportunidade para citar aqueles diretores que, de certa forma, marcaram a nossa convivência, como o Dr. Orion, o Dr. Stimamilio e o Dr. Campelo.

A Academia Nacional de Polícia evoluiu muito, mas observo que ela precisa valorizar mais a construção das relações interpessoais, o que exige a ampliação do tempo destinado à formação profissional. Acredito que o período ideal para a realização dos cursos de formação seja de, aproximadamente, seis meses. Isso proporcionará maior entrosamento entre as pessoas, contribuindo para que saiam daqui policiais mais integrados nas funções que terão de desempenhar.”

O SINPECPF só lamenta que o colega Cavalcanti tenha de se aposentar compulsoriamente sem estar com sua carreira devidamente estruturada. Que a Polícia Federal se atente para este drama, exigindo a rápida reestruturação não permitindo que outros profissionais tão assíduos e profícuos sejam penalizados pela morosidade governamental.

Porém, após conhecer esta bela história de vida, cabe a cada colega fazer uma reflexão. Toda relação de amor é feita de altos e baixos. Em sua longa trajetória pela Polícia Federal, Cavalcanti passou por todos os problemas que hoje afligem nossa categoria. Apesar disso, ele jamais abaixou a cabeça ou deixou-se inferiorizar perante as demais categorias existentes no órgão, estando mobilizado sempre. Que a conduta dele sirva de exemplo para colegas que sempre dizem estar desmotivados, mas que não possuem disposição para lutar.

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