Saúde: Prevenir problemas psicológicos é melhor que remediá-los

“Prevenir é melhor que remediar”. O chavão é velho e conhecido por todos. Mesmo assim, a Polícia Federal não segue a receita quando o assunto é a saúde psicológica de seus servidores. Reportagem da revista ISTOé do ano passado intitulada “Onda de suicídios assusta” chamou atenção para o alarmante número de policiais que tiraram a própria vida entre 2012 e 2013 (11), destacando como uma das razões para o problema a estrutura deficitária de atendimento psicossocial.

O problema já é conhecido da categoria administrativa e há algum tempo o SINPECPF cobra providências para contorná-lo. Basicamente, faltam profissionais de apoio biopsicossocial para dar acompanhamento adequado aos atuais 14.738 servidores ativos da PF. Em muitas das Superintendências Estaduais, não há sequer um profissional da área.

Quantificando a carência de profissionais de apoio biopsicossocial da Polícia Federal verifica-se que o órgão conta hoje com apenas:

  • 15 psicólogos;*
  • 3 psiquiatras;
  • 29 assistentes sociais;*
  • 6 enfermeiros;

 

Com contingente tão ínfimo, é impossível colocar em prática um programa preventivo de apoio psicológico de âmbito nacional para atender a totalidade do efetivo da PF. A situação fica ainda mais grave quando se observa que esses profissionais lidam com servidores expostos a altas cargas de estresse em suas atividades funcionais.

Opção equivocada – Uma política verdadeira de prevenção pressupõe complexo espectro de ações, que demandam desde o sensível aumento do efetivo das equipes de saúde até seu devido treinamento e especialização para as peculiaridades do trabalho na PF. Contudo, o Governo age na contramão, apostando em um modelo compartilhado de profissionais de saúde entre os diversos órgãos federais, o SIASS – Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor.

O SIASS busca integrar equipes de saúde de diferentes órgãos para tentar contornar o baixo efetivo que é regra o serviço público. A questão é que os problemas de saúde na PF costumam ser bastante específicos, necessitando de acompanhamento continuado e especializado, algo difícil de ser oferecido em um modelo impessoal como é o SIASS.

Para a psiquiatra da PF Joana Abrahão, o órgão deveria apostar em um modelo interno de atendimento, no qual os profissionais de saúde poderiam acompanhar de perto a evolução do tratamento. “Estamos falando de profissionais de segurança que andam armados e participam de operações de risco. Para prevenir que algo mais grave aconteça, é preciso estabelecer uma relação de confiança, algo que só é possível com um acompanhamento interno e contínuo”.

Também se faz necessária a correta valorização salarial desses profissionais, hoje mal remunerados em relação a outros órgãos públicos e à iniciativa privada. O salário de um servidor administrativo de nível superior varia hoje de R$ 4.844,72 a R$ 7.667,70 (um médico 20h ingressa recebendo R$ 4.205,72 e um médico 40h classe especial recebe R$ 9.955,40). Os valores defasados dificultam a retenção dos profissionais, que não raro migram para melhores empregos. Desencorajam ainda aqueles que planejam ingressar no serviço público, que acabam focando outros concursos.

Solução está engavetada desde 2009 – Para dar conta das necessidades e eventos críticos em saúde mental que seus servidores enfrentam, a PF criou o “Programa de Atendimento Biopsicossocial”, política institucional de âmbito nacional voltada à promoção da saúde dos servidores, instituída pela Instrução Normativa N° 02/2009 – DG/DPF em 2 de fevereiro de 2009.

A medida prevê a alocação de equipes voltadas para o acompanhamento em saúde mental e psicossocial – compostas por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e psiquiatras – em todas as unidades do DPF. Excepcionalmente, é facultada a possibilidade de formar equipes de atendimento com apenas dois servidores dos cargos mencionados, mas apenas nas unidades onde não houver efetivo suficiente e em caráter provisório.

Devido à carência crônica de servidores administrativos, a IN nunca foi realmente implementada. Ou seja: os problemas não são novos nem desconhecidos e a solução segue engavetada, esperando a contratação de mais profissionais de saúde e a valorização da categoria administrativa.

*Números ampliados em razão do último concurso.

Reportagem originalmente publicada pelo SINPECPF em 05/09/2013 e republicada hoje em função do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. 

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